Um ano numa grande superfície

O aparecimento das grandes superfícies e a sua multiplicação nos últimos 20 anos alteraram para sempre os nossos hábitos de consumo numa escala provavelmente maior do que aquela que possamos à primeira vista imaginar. Quase sem darmos por isso existe hoje em dia um calendário próprio que rege toda a atividade das grandes superfícies e que acaba por nos influenciar a todos (a uns mais, a outros menos) nas nossas compras.

O frequentador habitual de uma grande superfície, para além de corredores atravancados com pessoas e carrinhos cheios de compras, vai-se deparando ao longo do ano com uma sequência de campanhas que, com algumas (poucas) variações, acaba por ser quase sempre a mesma: ideias mais ou menos românticas e mais ou menos dispendiosas para o Dia dos Namorados, máscaras e disfarces de Carnaval para todos os gostos, amêndoas e ovos de chocolate de todas as cores para a Páscoa, tudo para as férias no campo ou na praia, o regresso às aulas, com corredores e corredores de mochilas, estojos, cadernos e tudo o mais que as nossas crianças precisam para a escola (e também o que não precisam), depois as castanhas e a jeropiga por ocasião do São Martinho e, logo de seguida, centenas de sugestões para prendas, como se o Natal chegasse logo no fim de novembro. Intercaladas algures entre estas campanhas aparecem ainda, invariavelmente, uma feira de queijos e enchidos de norte a sul de Portugal e uma feira do bebé. E para que não haja a menor possibilidade de passarem desapercebidas todas estas campanhas são largamente divulgadas em panfletos que nos entopem a caixa do correio, outdoors espalhados pela cidade e anúncios na rádio e na televisão.

Felizmente, não temos de seguir esta ditadura do consumo, temos vontade própria e liberdade de escolha e, por isso mesmo, poderemos sempre comprar uma tenda de campismo ou um chapéu de praia em janeiro ou uma caixa de chocolates para a nossa pessoa especial em outubro.

Luís dos Anjos