Regresso ao passado

Leiria, outubro de 2013. Em vez de lhe dar como destino o contentor da reciclagem, um colega de trabalho resolveu deixar na sala de funcionários umas quantas revistas já lidas. Para ocupar o pouco tempo que ainda tenho da hora de almoço pego numa delas e vou virando as páginas, lendo os títulos e, ocasionalmente, um ou outro parágrafo. A páginas tantas reparo num artigo que descreve como uma família do Canadá resolveu viver durante um ano tal como se vivia nos anos 80, ou seja, sem recurso à tecnologia dos nossos dias. E tudo começou porque, num belo dia, o pai daquela família não gostou que o seu filho preferisse continuar a brincar com o iPad, em vez de ir brincar lá para fora para o jardim. E assim iniciaram um autêntico regresso ao passado, sem telemóveis, iPad, Internet, Facebook ou TV cabo, mas com cassetes VHS, videojogos, brinquedos em plástico e em madeira, e até roupas da época. Também as relações com o exterior mudaram drasticamente, passando os contactos com os familiares e amigos a fazer-se novamente por carta para, por exemplo, enviar fotografias das férias ou do aniversário dos filhos… Não posso deixar de considerar a iniciativa original, mas simultaneamente excêntrica e, quiçá até, eventualmente traumática se não for levada a cabo com muita ponderação e bom senso.

Sem defender, obviamente, um regresso civilizacional à década de 80, não deixo, no entanto, de pensar em tudo o que havia de bom naquela época e na forma como conseguíamos ser felizes com muito menos… Hoje, os nossos adolescentes e jovens (a maioria deles) têm tudo o que querem, o que precisam e o que não precisam… Têm nas mãos ferramentas de comunicação, entretenimento e acesso ao conhecimento com as quais nós nem sonhávamos… mas a verdade é que nem por isso são mais felizes, melhores alunos na escola ou têm mais amigos… Alguns deles vivem até permanentemente insatisfeitos por não terem o último modelo de telemóvel ou a aplicação xpto no seu smartphone. A esses adolescentes e jovens estou certo que lhes faria bem um regresso ao passado para verem como era a vida no tempo dos seus pais e avós e, assim, aprenderem a valorizar o que hoje têm…

Luís dos Anjos