O tempo é aquilo que fica quando nada acontece

Nos dias que correm fala-se muito sobre o tempo e fala-se ainda mais sobre a falta dele. Os dias continuam a ter vinte e quatro horas, mas parece que elas não nos chegam, pois apesar de andarmos o dia inteiro em passo apressado, a correr de um lado para o outro, estamos sempre a queixar-nos que não temos tempo para nada.

Mas, se calhar, bem vistas as coisas, o que nos sobra é tempo. Na verdade, apesar de toda a agitação das nossas vidas, apesar de nos vermos envolvidos em variadíssimas actividades, quantas e quantas vezes chegamos a uma dada altura, olhamos para trás e parece-nos que não fizemos nada, que não construímos nada, que não temos nada para contar. Apenas temos o tempo que passou. Depois, olhamos para a frente, para o futuro, e também não vemos nada, nem sonhos, nem projectos, nem esperanças. Numa palavra, não vemos nada a não ser o tempo, atrás de nós e à nossa frente. Se temos esta sensação, então, é urgente mudar algo ou mudar tudo, porque na realidade não estamos a viver, apenas existimos, o que é bem diferente.

O tempo é um vazio que tem de ser preenchido! Para isso precisamos de um olhar atento e criador, precisamos de ser capazes de preencher cada minuto com sessenta segundos intensamente vividos, tornando cada dia que passa num dia especial, único e feliz. Só assim poderemos um dia olhar para trás e falar daquilo que fizemos – e não do tempo que passou.

Não deixemos que o tempo seja a única coisa que fica das nossas vidas.

Luís dos Anjos