O fim do Cozido à Portuguesa?

Como qualquer português que se preze sou um fervoroso adepto da nossa cozinha tradicional. Agrada-me saborear uma boa refeição, de preferência em boa companhia, num ambiente acolhedor e sem as pressas do dia-a-dia. Delicio-me com um bom Cozido à Portuguesa, um Bacalhau com Natas, uma Feijoada à Transmontana ou uns Rojões à Moda do Minho, devidamente acompanhados por um vinho a condizer. Como sobremesa, um Doce da Avó, um Arroz Doce ou um Leite Creme vêm mesmo a calhar. Finalmente, para terminar a preceito, um café bem tirado…

Infelizmente, a meu ver, os verdadeiros amantes da boa gastronomia são em número cada vez mais reduzido. Senão vejamos: a maioria das pessoas, principalmente as que vivem e trabalham nas grandes cidades, quase não têm tempo para as refeições. Ao almoço engolem uma pseudo-refeição, à pressa, no restaurante da esquina, apinhado de gente, com o fumo do cigarro do vizinho do lado, e o telemóvel sempre por perto. Ao jantar, cansados e sem paciência para cozinhar, aquecem no micro-ondas uma qualquer embalagem que tenha a indicação “Preparação rápida” e que apesar do bom aspecto que possa ter não deixa nunca de saber a plástico.

Os jovens, por seu lado, sem referências em casa e constantemente bombardeados pela publicidade, embarcaram quase irreversivelmente na moda do fast-food e da comida embalada: pizzas, hamburgueres, hot-dogs, batatas fritas de pacote, acompanhados por muitos molhos e uma Coca-Cola, ou algo parecido, são para eles verdadeiros manjares. Muitos quase não conhecem outro tipo de alimentação; jamais ouviram falar em batatas cozidas, feijão frade, couve lombarda ou sardinha assada com broa…

Que futuro para a nossa cozinha tradicional? Estaremos perante o fim do Cozido à Portuguesa? E o Bacalhau à Zé do Pipo? Alguém se lembrará dele daqui a algumas gerações?

Luís dos Anjos