Entre brandas e inverneiras

Manhã de sol. Algures entre Portos de Baixo e Castro Laboreiro, em plena Serra do Gerês e bem encostado a Espanha, deparamo-nos com dois ou três carros de matrícula francesa encostados na berma da estrada e um grupo de pessoas que se prepara para seguir a pé por um caminho de terra batida na montanha. Paramos e, julgando serem turistas, pergunto no meu Francês se vão visitar algo de interesse e que nós desconhecemos. Respondem-me em Português que não, são apenas emigrantes de férias em Portugal e que vão percorrer as terras por onde os seus avós andaram, largos anos atrás, a pastorear os seus rebanhos, entre brandas e inverneiras… Recordo, então, a explicação que nos foi dada no parque de campismo de Lamas de Mouro; as brandas são aldeias situadas na parte mais elevada da serra e que serviam de residência durante os meses de verão; as inverneiras são aldeias localizadas numa zona mais baixa para onde as populações eram obrigadas a se deslocar com os seus rebanhos para fugir aos rigores do Inverno. Havia, assim, anualmente, uma deslocação de pessoas e animais de uma aldeia para outra. Era a chamada transumância do gado, uma forma de pastoreio hoje praticamente extinta.

Mas mais do que esta curiosidade surpreende-nos a atitude daquele grupo. Numa altura em que cada vez mais as pessoas são obrigadas a partir para outras paragens, perdendo as suas raízes e ligações, aquela família estava de visita à terra dos seus antepassados para não deixar cair no esquecimento aqueles que um dia, sabe-se lá com que dificuldades, por ali cresceram e fizeram vida. Um gesto bonito e louvável para fazer passar de geração em geração esse valiosíssimo património que é a história da família.

Luís dos Anjos