A cidade e o campo

Antigamente, morávamos em casas modestas, sem vidros duplos nem aquecimento central, compradas com as poupanças de vários anos, acordávamos com o canto do galo, cumprimentávamos o vizinho do lado, sabíamos o nome de todos lá na aldeia, corríamos pelos campos, chegávamos ao emprego em quinze minutos, comíamos fruta das árvores e legumes acabados de colher, bebíamos água da fonte, fazíamos compras na mercearia onde o dono nos tratava pelo nome e nos fiava se fosse preciso, adormecíamos ouvindo os grilos no silêncio da noite… Ao fim de semana, encontrávamos toda a gente no adro da igreja, conversávamos uns com os outros e gostávamos de saber como estavam as pessoas que nos rodeavam…

Hoje, moramos em exíguos apartamentos, designados por “T – qualquer coisa”, sobrepostos uns sobre os outros e hipotecados ao banco durante pelo menos trinta anos, acordamos com o som estridente do rádio-despertador, saímos de casa e não cumprimentamos nem sequer os que vão connosco no elevador (aliás, até olhamos para o chão…), não sabemos o nome nem do nosso vizinho do lado (aliás, quase nunca o vemos…), corremos para apanhar o autocarro, o metro ou o comboio, demoramos uma hora (às vezes, até mais…) para chegar ao emprego; no regresso a casa, exaustos e sem paciência para cozinhar, passamos por um qualquer super ou hipermercado, onde ninguém nos conhece, e compramos uma refeição enlatada ou congelada, de preparação rápida no micro-ondas, e que nos sabe sempre a plástico, adormecemos enquanto ouvimos a televisão do vizinho do andar de cima… Ao fim de semana, e depois de dar dez voltas num parque de estacionamento três pisos abaixo do nível do solo à procura de um minúsculo lugar para deixar o carro, acotovelamo-nos, incógnitos, nos corredores de um qualquer centro comercial sem trocar uma única palavra com ninguém…

Como são diferentes as vivências de outrora e as dos nossos dias…

Luís dos Anjos